ambiente acreano: RESTRIÇÃO À EXPLORAÇÃO COMERCIAL DE ALGUMAS ESPÉCIES MADEIREIRAS NO ACRE
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quarta-feira, agosto 27, 2008

RESTRIÇÃO À EXPLORAÇÃO COMERCIAL DE ALGUMAS ESPÉCIES MADEIREIRAS NO ACRE

"Será que o Governador Binho Marque vai sancionar o projeto sem ressalvas? Poucos estão cientes do profundo impacto do projeto no futuro da exploração florestal acreana!"

Evandro Ferreira
Blog Ambiente Acreano

Pouca gente, incluindo os deputados que votaram a favor, compreendeu a dimensão e implicações da aprovação do projeto do Deputado Estadual Zé Carlos (PTN) que restringe o corte, para fins de exploração comercial, de 24 espécies de árvores existentes na floresta acreana.

Posso estar sendo arrogante ao afirmar que nem mesmo o Deputado está ciente de que se o seu projeto for sancionado pelo Governador Binho Marques, ele vai entrar para a história da exploração florestal no Brasil.

Embora a intenção original do Deputado fosse tão somente preservar as espécies usadas pela fauna local para, em suas palavras, 'garantir que a caça não fuja da mata e deixe os seringueiros com fome', na verdade o projeto tem um efeito bem mais amplo do que se imagina. Ele se constitui na primeira ação concreta que combate, no Acre e na Amazônia brasileira, o conhecido efeito 'florestas vazias' ou 'florestas silenciosas', que resulta da exploração florestal seletiva em florestas tropicais.

Nesta situação, a floresta, após a exploração comercial das principais espécies madeireiras, fica aparentemente intacta. Mas a realidade é que a maior parte dos animais e pássaros que se alimentavam das espécies retiradas durante a exploração migram para outras regiões. Daí o termo 'floresta vazia ou silenciosa'.

Outro aspecto que foi pouco considerado durante a aprovação do projeto do Deputado Zé Carlos é o fato de que mais do que garantir a simples preservação das espécies madeireiras e indiretamente dos animais que se alimentam delas, a lei tem o potencial de jogar o setor de exploração florestal do Acre em uma grave crise nos próximos 5-10 anos. Talvez até antes.

Explico: no Acre são exploradas atualmente por volta de 40-50 espécies madeireiras. O projeto do deputado incluiu 24 espécies ou quase 50% do que se explora no Estado. Mesmo considerando que as espécies listadas no projeto são exploradas em baixa escala, o número é significativo.

O fato da lista de espécies não ter causado 'comoção' entre os envolvidos na cadeia produtiva de madeira no Acre tem uma explicação relativamente simples. Todos sabem que hoje o 'grosso' da exploração comercial madeireira no Acre está centrada em cerca de 15-20 espécies, entre as quais se destacam o cedro, cerejeira, samaúma, cumarú-ferro, cumarú-cetim, amarelão, alguns angelins, ipê, sucupira, mulateiro e o bálsamo. Portanto, a maioria esmagadora das espécies de alto valor comercial não estão incluídas no projeto do Deputado.

Entretanto, quando o estoque dessas espécies desaparecer, os madeireiros locais se voltarão para a exploração intensiva de outras espécies, e, com certeza a copaíba, andiroba, jutaí, mirindiba, jatobá, manitê, toarí, castanharana, cajuzinho (ou cajuí), guariúba, copinho e o pequi estarão incluídas entre as mais visadas.

Isso acontece porque a exploração de madeira na Amazônia ocorre em etapas. Inicialmente se tiram apenas espécies mais valiosas até que o estoque natural delas diminua a ponto de tornar antieconômica a retirada das mesmas. No Acre vivemos esta etapa. Em uma segunda leva, a exploração passa a focar na extração de espécies que foram deixadas de lado durante a primeira fase. E aqui é que entra a maioria das espécies listadas no projeto do Deputado José Carlos.

Vejam o caso de Rondônia. Lá já se esgotaram os estoques das espécies mais nobres e o ciclo da exploração madeireira está chegando ao final da segunda etapa nas áreas onde a exploração legal é permitida. Diante do colapso inevitável, o setor madeireiro daquele estado vive de extrair ilegalmente madeira nobre das reservas indígenas, parques e outras áreas de proteção ambiental federais e estaduais.

Considerando o que acontece em Rondônia, fica no ar a pergunta:

- Será que o projeto do Deputado Zé Carlos vai funcionar como um incentivo à exploração ilegal de madeira nobre em reservas e áreas protegidas do Acre?

Projeto aprovado sem problemas

Foi impressionante o silêncio dos madeireiros acreanos, dos moveleiros e mesmo da Secretaria Estadual de Floretas, que vive apoiando projetos de extração madeireira comunitária. Mas isso vai mudar quando o estoque de madeira nobre acabar nas áreas mais acessíveis do Estado. Só aí esses atores irão lembrar do projeto do Deputado Zé Carlos. Mas então, se nada de errado acontecer, vai ser tarde demais para mudar as regras do jogo.

Mais intrigante foram os argumentos do deputado para aprovar seu projeto sem maiores problemas na Assembléia Legislativa.

Ele deu declaração na imprensa local de que as espécies listadas são 'madeira brancas', com baixo valor de mercado. No que se refere ao preço, realmente elas valem pouco hoje, mas em alguns anos só restarão elas para serem exploradas e o preço vai subir muito pois os madeireiros (que deveriam ser chamados de garimpeiros de madeira) não costumam plantar espécies madeireiras para repor os estoques que eles mesmo esgotam.

Quanto às espécies listadas no projeto do Deputado serem 'madeira branca', acho que faltou alguém avisar aos outros deputados que a copaíba, andiroba, jutaí, jatobá e toarí não se encaixam nessa classificação. De branco têm muito pouco. São madeiras nobres.

Fotos que ilustram o artigo: vistas do tronco, corte da casca e dos frutos do Jutaí (Evandro Ferreira)
Publicado por Evandro Ferreira 1 comentários Digg! Link Permanente Envie este artigo para um amigo

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Olá, Evandro!

Muito interessante o artigo, mas não entendi sua questão "
- Será que o projeto do Deputado Zé Carlos vai funcionar como um incentivo à exploração ilegal de madeira nobre em reservas e áreas protegidas do Acre?"

Mas uma atividade destruidora deveria ser a diretriz da criação de leis? A meu ver a criação de leis não deveria se submeter ao comportamento destrutivo das madeireiras...

De qualquer maneira, gostei muito do artigo, da maneira como vc explicou o funcionamento das madeireiras. ;)


Obrigada,
Gisele (perdão pelo anonimato, mas não tenho cadastro para preencher aqui.)

19:43  

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