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sábado, dezembro 10, 2016

NOVAS DESCOBERTAS SOBRE O PARASITA CAUSADOR DA MALÁRIA

Agência USP de Notícias/Rui Sintra, IFSC.

Uma molécula localizada no sistema do Plasmodium falciparum — principal parasita causador da Malária — pode alertar esse organismo de possíveis perigos. Aliás, quando tem sua atividade interrompida, ela pode causar a morte do parasita.

Esses fatos, que podem ser eventualmente considerados algumas das “chaves” da descoberta do combate à Malária, foram observados por pesquisadores do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar-CEPID) do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), por meio de um estudo desenvolvido em parceria com especialistas do Instituto de Biociências (IB), ambos da USP. O artigo referente às descobertas foi publicado em fevereiro último na Scientific Reports, da Nature. O CIBFar é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

[Malária é transmitida por meio da picada da fêmea do mosquito Anopheles]

Responsável por aproximadamente 600 mil mortes por ano, onde crianças com menos de cinco anos representam aproximadamente 78% desse índice, a Malária é uma doença tropical infecciosa, transmitida ao ser humano através da picada da fêmea do mosquito Anopheles. Acredita-se que uma pessoa morre de Malária, no mundo, a cada minuto. Além disso, estima-se que três bilhões de pessoas correm o risco de serem acometidas pela doença, que pode causar calafrios, febre alta, dores de cabeça e musculares, delírios, sonolência, vômitos, entre outros sintomas. No Brasil, o parasita mais comum que causa a doença é o Plasmodium vivax. Ele dificilmente leva o paciente à morte, mas causa grande morbidade. O Plasmodium falciparum, acima citado, é o mais temido, em razão de ser o principal causador de mortes por Malária no mundo.

Quando o P. falciparum invade a corrente sanguínea, ele se aloja nos glóbulos vermelhos (hemácias), sendo que para obter energia suficiente e sobreviver no organismo humano, ele degrada as hemoglobinas, que são as principais proteínas presentes nas hemácias e que são responsáveis pela coloração vermelha do sangue.
Apesar de parecer simples, esse processo de obtenção de energia é complexo, já que, dentro dessas proteínas, existe uma molécula chamada “heme” que é liberada quando o parasita degrada a hemoglobina, ficando solúvel nos glóbulos vermelhos e tornando-se tóxica ao Plasmodium. Contudo, ao longo de sua evolução, o P. falciparum “aprendeu” a se proteger dessa molécula tóxica, polimerizando-a e precipitando-a. “O parasita não sabe lidar com o heme; então, ele deixa essa molécula ‘de lado’. Ela incomoda o parasita, mas deixa de ser tóxica para ele”, explica o professor Rafael Guido, docente do Grupo de Cristalografia do IFSC que fez parte deste trabalho, cuja autoria principal foi dividida entre os pesquisadores Fernando Maluf, do IFSC, e Eduardo Alves, do IB.

[Visão geral da ligação da biliverdina na enzima enolase (esquerda) e detalhes do modo de ligação da biliverdina (direita)]

“Detoxificação”

Essa foi apenas uma das maneiras que o P. falciparum encontrou ao longo dos anos para se esquivar do heme e sobreviver no hospedeiro. Uma outra alternativa usada pelo parasita é conhecida como “detoxificação”, processo em que o P.falciparum transforma o grupo heme em uma molécula chamada biliverdina, através da heme oxigenase, uma molécula presente tanto no organismo humano, como no sistema do parasita, que oxida o grupo heme.

Após 72 dentro de uma hemoglobina, o parasita se multiplica tanto que provoca a explosão da célula e a liberação dos parasitas pelo organismo humano, o que pode causar complicações ao paciente, como, por exemplo, hemorragia (perda súbita de sangue que pode ocasionar a morte).

Durante alguns estudos feitos em laboratório, a professora Célia Garcia, pesquisadora do IB e autora correspondente do trabalho, observou que o P. falciparum produz a biliverdina que, assim como o grupo heme, pode ser tóxica para ele. E, se esse organismo produz a biliverdina, é porque existe alguma enzima em seu sistema que permite fazer isso. “Na literatura, existem muitas discussões a respeito da enzima ser capaz de converter o grupo heme em biliverdina no sistema do parasita. Mas, descobrimos que há biliverdina nesse organismo”, explica Guido, destacando que os pesquisadores chegaram a essa conclusão, porque encontraram biliverdina em glóbulos vermelhos onde o parasita havia se instalado. Nesses glóbulos, não existem enzimas humanas capazes de produzir biliverdina, portanto, nesse caso, ela só pode ter sido produzida pelo parasita.

Nessa etapa do estudo, os pesquisadores nocautearam (termo comum utilizado no meio científico) esse parasita, ou seja, retiraram o gene que codifica para a enzima heme oxigenase, impedindo, assim, a produção de biliverdina. Quando o parasita foi nocauteado, ele morreu. “Ter retirado o gene do parasita foi letal para ele. Isso é super interessante para nós, que queremos desenvolver um fármaco para combater a Malária, porque mostra que se impedirmos a produção ou a ação da heme oxigenase [aquela molécula que oxida o grupo heme], conseguiremos combater o parasita”, diz Guido.

Além disso, foi observado que a biliverdina modifica o ciclo de vida do parasita, impedindo o desenvolvimento e amadurecimento do P. falciparum. De acordo com o docente do IFSC, se ela é tão importante, existe alguma outra proteína que se liga à biliverdina. Mas, então, qual seria essa proteína? Baseados nessa questão, os pesquisadores desenvolveram outra série de ensaios em laboratório, na qual observaram que a enzima enolase se une à biliverdina, sendo uma enzima importante para o parasita. Essa descoberta surpreendeu os pesquisadores, já que a enolase é uma enzima que fica localizada em outra via do organismo do Plasmodium e que, em princípio, não deveria se unir ao grupo heme.

Após a descoberta, a enolase foi clonada, expressada e purificada — processos comumente realizados para se estudar uma enzima. A partir desses procedimentos, os pesquisadores conseguiram caracterizar a interação da biliverdina com a enzima em questão e concluíram que a biliverdina se liga à enolase para alertar o parasita de algum perigo. “A biliverdina funcionaria como uma molécula de comunicação e a enolase como o sensor que detecta a biliverdina. Então, se há algo errado que pode prejudicar o parasita, ele fica sabendo e se protege, parando a taxa de multiplicação e se mantendo em formas mais resistentes”, revela Guido.

Após essa série de estudos que revelaram tais descobertas “inesperadas e curiosas, que abrem uma fronteira para muitos outros trabalhos voltados ao combate da Malária”, os pesquisadores estão investigando a enolase, com o intuito de buscar inibidores que possam impedir a interação da biliverdina com essa enzima, bem como a sua função natural, tornando o parasita um alvo mais fácil de ser combatido futuramente. Tal fase dessa pesquisa deverá ser o foco do próximo artigo assinado por Guido e seus colegas pesquisadores.

Em busca de fármacos

Apesar de ter obtido tais resultados, Guido esclarece que novos fármacos para a Malária deverão se tornar realidade somente daqui a uma ou duas décadas. Contudo, o docente destaca outra iniciativa do IFSC, que visa o desenvolvimento de novos tratamentos para a Malária: Em breve, o Instituto deverá estabelecer, por meio dos professores Rafael Guido e Glaucius Oliva, uma parceria com a organização não governamental Medicines for Malaria Venture (Genebra; Suíça). O objetivo dessa colaboração será o desenvolvimento de novos candidatos a fármacos voltados ao combate da Malária.


Fotos: Divulgação / Scientists Against Malaria e IFSC
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sexta-feira, dezembro 09, 2016

COMER ANTES DE DORMIR FAZ MAL À SAÚDE?

BBC Brasil, 20/11/2016

Um estudo realizado com 700 adultos e apresentado em congresso recente da Sociedade Europeia de Cardiologia analisou a relação entre as horas nas quais se consome alimentos e os efeitos no organismo.

A pesquisa constatou que ingerir alimentos tarde da noite gera um impacto significativo na pressão arterial.  Durante a noite, o processo fisiológico normal é a queda da pressão arterial.

Porém, o estudo descobriu que 24,2% dos participantes que comeram até duas horas antes de dormir não registraram uma queda adequada da pressão sanguínea.
Entre os que haviam jantado mais cedo, a porcentagem foi de 14,2%.

"Estado de alerta"

Segundo especialistas, consumir alimentos antes de dormir faz com que o organismo permaneça em "estado de alerta", no qual estimula a produção de hormônios do estresse, como a adrenalina, e pode alterar o ritmo circardiano, o ritmo diário do organismo.

Ebru Ozpelit, professora de Cardiologia da Universidade de Dokuz (Turquia), que apresentou o estudo, disse que os resultados sugerem que o que se come é tão importante quanto o tipo de alimentos que se ingere.

Ozpelit disse que a vida moderna está criando "hábitos de alimentação erráticos", como o de pular o café da manhã e comer cada vez mais tarde. Tais práticas, afirma, estão se tornando cada vez mais frequentes e podem causar danos ao longo do tempo. "Devemos definir a frequência ideal e a hora dos alimentos", afirma Ozpelit.

"O café da manhã é importante, devemos tomar um café da manhã forte e não pular o almoço. Devemos fazer um jantar mais leve e ele não deve ser depois das sete da noite", afirmou.

Obesidade

Os especialistas afirmam que o corpo humano não está preparado para enfrentar muitos dos aspectos da vida moderna. Com a chegada da luz artificial e a industrialização, os humanos modernos começaram a experimentar horas prolongadas de iluminação. Isso levou a um consumo estendido de alimentos e ao consumo de alimentos cada vez mais tarde no dia.

Sandra Hirsch, especialista em nutrição humana pelo Instituto de Nutrição e Tecnologia de Alimentos da Universidade do Chile, afirma que as refeições noturnas podem ter efeitos adversos no organismo.

"Quando alguém come, uma série de processos metabólicos se desenvolve", disse a especialista à BBC Mundo. "São liberados hormônios no processo de absorção de alimentos. Portanto, se eu comer e ir dormir, esses mecanismos hormonais podem ter impactos negativos no organismo."

Segundo ela, alguns desses impactos podem ser ganho de peso ou mesmo obesidade. "Comer tarde pode inibir a degradação da gordura no organismo, que é um processo natural durante a noite", afirma Hirsch. "E isso pode fazer com que uma pessoa que está tentando emagrecer tenha mais trabalho."

Refluxo
 
Outro problema de comer perto da hora de dormir é o refluxo, segundo a especialista. Esse transtorno faz com que o conteúdo estomacal retroceda do estômago até o esôfago, o que pode irritar o esôfago e causar acidez gástrica, náusea, indigestão e, em alguns casos, provocar câncer de esôfago.

"Se uma pessoa come e vai dormir não consegue esvaziar o estômago, por isso o estômago fica cheio, e se a válvula gastroesofágica está alterada a comida vai subir."
Segundo estudos mais antigos, pessoas que comem antes de dormir têm maior risco de desenvolver sintomas de refluxo.

Em um artigo publicado no jornal americano The New York Times em 2015, Jamie Koufman, médico especializado em transtornos de refluxo, escreveu que esses transtornos se transformaram "em uma epidemia que afeta até 40% dos americanos".

Ele afirmou que também podem ser causas dessa "tendência inquietante" uma dieta ruim, com maior consumo de açúcar, gordura e alimentos processados.

"Há outra variável importante que vem sendo ignorada: a hora que jantamos."
O médico afirmou que o ideal é não comer após às 20h ou fazer a refeição noturna três horas antes de dormir.


"Concluindo, não é bom comer muito tarde nem comer e ir dormir", afirma a especialista em nutrição Sandra Hirsch.
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quinta-feira, dezembro 08, 2016

EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA AUMENTAM 3,5% NO BRASIL

Desmatamento foi responsável por aumento da poluição climática, que ocorreu apesar de queda recorde no PIB; dados mostram país afastado do cumprimento de compromissos internacionais.

Por Redação do Observatório do Clima

As emissões brasileiras de gases de efeito estufa (GEE) tiveram uma elevação de 3,5% em 2015 em comparação com o ano anterior. O dado é do SEEG (Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa), do Observatório do Clima, cuja quarta edição será lançada nesta quinta-feira (27), no Rio de Janeiro.

De acordo com o sistema, o Brasil emitiu 1,927 bilhão de toneladas brutas de CO2 equivalente (CO2e, a soma de todos os gases de efeito estufa convertidos em dióxido de carbono) no ano passado, contra 1,861 bilhão de toneladas em 2014.

A elevação aconteceu num ano em que o PIB do país caiu 3,8%, numa das piores recessões da história. Ela se deu sobretudo devido ao aumento do desmatamento no ano passado. Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) divulgados em setembro indicam que a taxa de desmatamento na Amazônia cresceu 24% em 2015 em relação a 2014. As emissões por mudança de uso da terra, que consideram todos os biomas brasileiros, cresceram 12%.

Já o setor de energia, segunda maior fonte de emissões da economia brasileira, teve uma queda de 5,3%, devido à desaceleração econômica e ao avanço das energias renováveis. É a primeira vez desde 2009 que as emissões do setor de energia caem no Brasil. Nos demais setores — processos industriais, agropecuária e resíduos — as emissões não variaram significativamente em relação a 2014.

Os dados de 2015 SEEG consolidam um quadro de estagnação nos últimos anos, no qual o país não consegue reduzir suas emissões apesar dos compromissos assumidos em 2009, na conferência de Copenhague. Em 2013, elas cresceram 8%, mesmo com a estagnação. Em 2014, caíram 4%, na esteira da queda de 18% do desmatamento na Amazônia — mas com forte aumento no setor de energia, devido à seca que fez o governo acionar termelétricas fósseis. No ano passado, elas subiram em plena recessão.

Desde 2005, quando o Brasil começou a derrubar o desmatamento na Amazônia, até o ano passado, as emissões da agropecuária aumentaram 9%, as de energia aumentaram 45% e as de resíduos e processos industriais, cerca de 23%. “Os dados mostram que o Brasil teve um período singular de queda de 2005 a 2010 e, desde então, estamos patinando, com emissões totais estabilizadas há seis anos e com forte aumento no setor de energia”, afirma Tasso Azevedo, coordenador do SEEG.

As emissões do país estão no mesmo ponto em que estavam em 2010, quando o Brasil começou a implementar as metas com as quais se comprometeu em Copenhague — de redução de 36,1% a 38,9% até 2020 em relação à trajetória. “Hoje temos de reduzir o desmatamento pela metade para cumprir a meta de Copenhague, mas ele está aumentando em vez disso”, afirmou Tasso Azevedo.

“Nos países desenvolvidos e até mesmo em países em desenvolvimento como a China nós começamos a ver um descolamento entre PIB e emissões: a economia cresce com emissões estáveis ou em queda. No Brasil isso não acontece. É preocupante, porque rumamos para 2020 com emissões em alta e não numa trajetória consistente de redução”, afirma André Ferretti, gerente de Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário e coordenador-geral do Observatório do Clima (OC).

Para Carlos Rittl, secretário-executivo do OC, os dados mostram que o Brasil está longe de uma trajetória de redução de emissões compatível com seus compromissos no Acordo de Paris. “O acordo do clima entra em vigor daqui a 11 dias. Tirá-lo do papel exige mudar drasticamente o rumo do nosso desenvolvimento, mas não é o que estamos vendo acontecer”, afirmou. “As emissões de energia caíram, mas o risco de elas voltarem a subir rapidamente quando o país sair da recessão é enorme, dada a aposta nos combustíveis fósseis, que dominam os investimentos no setor — com o Congresso ainda por cima embarcando no trem da alegria do carvão, como se quisesse que o país voltasse ao século 19.”

Energia

Entre 2014 e 2015, dois fatores foram responsáveis majoritários pela redução das emissões no setor de energia, onde elas crescem mais depressa no país: a desaceleração econômica e o aumento da participação das fontes renováveis na matriz energética, em especial o álcool combustível. “Sessenta e cinco por cento da redução de emissões no setor de Energia ocorreu nos transportes”, diz Marcelo Cremer, do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente). Por conta da crise, o consumo de diesel utilizado para transporte de cargas caiu 7,1%. O consumo total de combustíveis para veículos leves (etanol e gasolina) se manteve estável, porém o etanol apresentou um crescimento de 18,6%, enquanto a gasolina diminuiu 9,4%. Esses fatores foram responsáveis por uma redução de 7,4% no setor.

Na sequência, os dois maiores responsáveis pela redução de emissões no último ano foram a geração de eletricidade e as atividades industriais, que caíram, respectivamente, 4,8% e 2,9%. “A queda nesses dois setores está relacionada à redução do crescimento econômico que provocou, entre outros, diminuição na demanda de eletricidade e na produção física de aço e cimento”, diz Cremer. Colaborando ainda mais para a redução dessas emissões está o aumento das fontes renováveis não hídricas na matriz elétrica, principalmente a eólica: 21,1%. O despacho das usinas hidrelétricas caiu 3,7% e das usinas térmicas a combustíveis fósseis diminuiu 4,9%.

Agropecuária

O SEEG 2016 incorpora duas novidades no setor que é o terceiro maior responsável pelas emissões brasileiras. Primeiro, o monitoramento mensal das emissões da produção de carne e do uso de fertilizantes; depois, o primeiro cálculo das emissões e remoções de carbono no solo devido as práticas agrícolas, que não são contempladas pelos inventários nacionais de emissões.

Conhecer a emissão dos solos é fundamental, porque a NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) do Brasil tem um forte componente de recuperação de pastagens degradadas. No entanto, hoje não se computa quanto essas pastagens emitem ou removem de carbono no solo — um dado crucial para entender o potencial de sequestro de carbono em pastos recuperados.

Segundo a primeira estimativa do SEEG, solos agrícolas emitiram em 2015 cerca de 225 milhões de toneladas de CO2 equivalente e sequestraram 195 milhões de toneladas. “O grande salto que o Brasil pode dar é nesse setor, porque nós temos 50 milhões de hectares de pastos degradados que estão emitindo carbono, quando poderiam estar sequestrando”, disse Marina Piatto, coordenadora da iniciativa de Clima e Agropecuária do Imaflora.

Resíduos

Desde 1990, o setor de resíduos sólidos apresentou um cenário crescente de emissões, devido sobretudo à disseminação dos aterros sanitários. Nos aterros, o processo de decomposição anaeróbica, que gera gás metano, é mais frequente do que nos lixões — em compensação, nos aterros, esse gás pode ser aproveitado para gerar energia.

As emissões de esgoto têm uma forte correlação com aspectos econômicos e taxas de urbanização observada no país. “A tendência é bem clara: em Estados onde há uma população maior e altas taxas de urbanização, as emissões tendem a ser bem maiores”, diz Igor Albuquerque Reis, gerente de Mudanças Climáticas do ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade. “O fato de haver poucos investimentos na prática de recuperação energética nas estações de tratamento de esgoto é um dos motivos pelo qual as emissões do setor não apresentam uma queda significativa”, prossegue Reis. “Com a universalização do acesso à rede de esgoto e a ampliação do tratamento de efluentes previstos na Lei de Saneamento, é bem provável que ocorra um aumento das emissões no setor, logo o aproveitamento energético de lamas residuais e biogás seria muito desejável.”

Terceiro inventário

Os dados de 2015 foram ajustados de acordo com o Terceiro Inventário Nacional de emissões, entregue pelo Brasil à ONU em abril deste ano. O inventário, a informação oficial mais recente e acurada disponível sobre as emissões do Brasil, mostra que as emissões por desmatamento em 2010 foram cerca de 25% maiores do que indicava o inventário anterior. Isso levou a uma revisão em toda a série histórica de emissões por mudança de uso da terra, o que produziu a elevação em todos os valores reportados anteriormente pelo SEEG e também a queda de 4% nas emissões brutas do país em 2014 em relação a 2013 (os dados anteriores, produzidos com base no segundo inventário, mostravam uma queda de 0,9% no total).

Bruto ou líquido?

As emissões líquidas de GEE em 2015 foram de 1,402 bilhão de toneladas de CO2e, contra 1,336 bilhão em 2014 — alta de 4,9%.

Nesta edição, o SEEG também dá um tratamento distinto às chamadas emissões líquidas — que descontam as remoções de CO2 por florestas em áreas protegidas, como unidades de conservação e terras indígenas. O governo reporta esses dados na contabilidade oficial do Brasil, considerando-as remoções “antrópicas”. Tal desconto é facultado aos países pelo IPCC, o painel do clima da ONU. No entanto estas remoções são, a rigor, naturais (elas ocorrem enquanto as árvores crescem nessas florestas), o que distorce o resultado.

A partir do Terceiro Inventário Nacional, porém, tornou-se possível também estimar as remoções por florestas secundárias, ou seja, por rebrota de florestas. O SEEG 2016 reporta os três números, portanto: emissões brutas, emissões líquidas considerando remoções por áreas protegidas (na mesma métrica do governo) e emissões líquidas considerando também as remoções por florestas secundárias.

* Publicado originalmente no site Observatório do Clima.

** Fonte da imagem: Observatório do Clima
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quarta-feira, dezembro 07, 2016

INCÊNDIOS CRIMINOSOS DEVASTAM A AMAZÔNIA EM 2016

Aliny Gama-UOL/Fernando Donasci-Folhapress
25/11/2016

Relatório do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) apontou que a região Norte lidera o número de Estados que vêm tendo suas matas devastadas pelas queimadas. A maioria dos incêndios tem origem criminosa e não são ocasionados por quedas de raios já que estamos em período de estiagem.

Da lista dos dez Estados com maior número de queimadas durante o ano, cinco estão no Norte, dois no Nordeste, dois no Centro-Oeste e um no Sudeste.

1º Mato Grosso (28.420)
2º Pará (18.669)
3º Maranhão (17.016)
4º Tocantins (14.269)
5º Amazonas (11.364)
6º Rondônia (11.239)
7º Piauí (7.169)
8º Acre (6.942)
9º Mato Grosso do Sul (6.678)
10º Minas Gerais (6.515)

Os dados são do Programa de Queimadas, que monitora a ocorrência desses eventos por satélite.

Com isso, vemos que os Estados do Norte são maioria, além da fronteira agrícola ao redor da Amazônia, com Estados como o Mato Grosso, Maranhão e Piauí. No mês de outubro, o Estado do Maranhão lidera a lista com 5.351 focos de incêndio. Em seguida vem o Pará, o Mato Grosso, o Piauí e o Amazonas.

“Não existe combustão espontânea, e bitucas de cigarro raríssimas vezes iniciam o fogo. Da mesma forma, cacos de vidro de garrafas e fundo de latinhas de refrigerantes/cerveja não causam ignição de mato. Quem usa estes argumentos para justificar as ocorrências de queimadas/incêndios não sabe o que está dizendo, ou tem intenções escusas."
Coordenador do Programa Queimadas do Inpe, Alberto Setzer

O fogo é usado para desmatar e ou remover da vegetação natural do lugar para dar espaço para atividades agropecuárias. Além disso, o uso do fogo na vegetação de origem antrópica segue o padrão climático e ocorre principalmente entre nos períodos de estiagem.

Prejuízos

As queimadas causam prejuízos inestimáveis. Este ano, linhas de transmissão de energia elétrica localizadas nos municípios de Miracema do Tocantins e Colina do Tocantins, no Tocantins, foram atingidas por queimadas e o sistema de fornecimento elétrico foi interrompido em 12 Estados do Norte e do Nordeste - Amazonas, Amapá, Pará, Tocantins, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe.

No final do mês de outubro, Teresina e cidades da região metropolitana enfrentaram problemas causados por queimadas. O fogo descontrolado chegou a atingir casas na zona rural e ameaçou um condomínio de luxo localizado às margens da BR-343. Até a água de um lago e da piscina foram usadas para reforçar o combate ao fogo no mato para que não atingisse os imóveis.

Menos queimadas em setembro

Os meses de agosto, setembro e outubro costumam ser os mais críticos com ocorrência de queimas porque a incidência das queimadas está relacionada ao tempo de colheita de atividades agropecuárias, clima e tipo de vegetação nativas das regiões mais afetadas. 

Entretanto, o pico de setembro neste ano foi inferior ao que se imaginava e abaixo da média histórica do mês – foram 44.060 focos contra a média de 55.378. O incomum para 2016 foi os primeiros meses: o Brasil bateu recordes históricos de queimadas em janeiro, fevereiro, março e abril – o máximo para estes meses havia ocorrido em 2003.

“O mês de setembro é geralmente quando se registra o maior número de queimadas no país, mas neste setembro um canal de umidade se formou sobre o eixo sul do Pará, Tocantins, sul do Maranhão, sul do Piauí e Bahia que ocasionou um aumento de nebulosidade e chuvas. Com isso, favoreceu uma diminuição nas queimadas justamente no mês que costuma ser o mais problemático"
Meteorologista do Inpe, Marcelo Romão

O inverno rigoroso registrado este ano no Brasil, o fim do El Niño, com fortes frentes frias e temperaturas abaixo da média, são inibidores de queimadas.

O coordenador do Programa Queimadas do Inpe, Alberto Setzer, explica que as
reduções observadas pelo instituto, apesar de estarem corretas, "podem omitir
eventos relevantes com graves impactos materiais e na população, como foram os
ocorridos neste ano no Piauí e Maranhão, no mês de outubro, e no Amazonas, no
início do ano."

"Existe legislação federal, estadual (e municipal em muitos casos) proibindo o uso
do fogo na vegetação, exceto em casos autorizados – a grande minoria. Por outro
lado, o Programa Queimadas do INPE fornece as ferramentas necessárias para que
a legislação seja implementada, o que raramente ocorre", diz Setzer, que salienta:


"grande parte dessas queimas não é autorizada".
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terça-feira, dezembro 06, 2016

POR QUE A PREOCUPAÇÃO SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS? (*)

6. Resultados científicos recentes e a seca do ano de 2016

Foster Brown (**) e George Luiz Pereira Santos (***)

A geração de dados e novos conhecimentos científicos estão acelerando a um ponto que é quase impossível ficar atualizado. Uma oportunidade de saber um pouco dos avanços nas ciências de mudanças climáticas é a reunião da União Geofísica Americana (American Geophysical Union, AGU) que ocorre anualmente em San Francisco, nos EUA. No mês passado, a AGU reuniu mais de 24.000 pesquisadores que apresentaram 23.000 trabalhos durante cinco dias. Mais da metade das seções tinha algo relevante a mudanças climáticas.

Nós participamos de uma sessão sobre eventos climáticos extremos na Amazônia, que teve nove trabalhos apresentados. Aqui fazemos um resumo destes trabalhos e de uma visita à Floresta Estadual Demonstrativa de Boggs Mountain, que sofreu um dos impactos da seca prolongada na Califórnia – um incêndio florestal que queimou mais de mil casas e causou a evacuação de 16.000 pessoas.

Os mais preocupantes dos trabalhos apresentados foram os do Dr. Sassan Saatchi e colegas Liang Xu e Yan Yang.  Usando dados de satélites Dr. Saatchi mostrou que a temperatura das copas das árvores tem subido nos últimos 15 anos na Amazônia ocidental, com picos de temperatura durante as secas de 2005 e 2010. No mesmo tempo a quantidade de água nas copas, ou seja, nas folhas tem baixado. Em outro estudo deste grupo, medidas feitas por lasers satelitais da altura da floresta na Amazônia ocidental tinham mostraram uma redução de 2004 a 2007, implicando uma redução da biomassa e carbono nas florestas, associada a seca de 2005.

José Marengo, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) de São Paulo, notou que as secas e inundações na Amazônia tem sido com uma frequência mais alta nas últimas duas décadas.   George Santos abordou as lições dos últimos desastres para a Defesa Civil na região trinacional de Madre de Dios-Peru, Acre-Brasil e Pando-Bolivia.   Ele apresentou também o pôster da vice-governadora Nazareth Araújo que discutiu as implicações de eventos climáticos extremos no desenvolvimento do Acre.  Foster Brown fez sugestões de como priorizar meios de adaptação na bacia trinacional do Rio Acre.

Em soma, os trabalhos reforçaram que:

a) O estresse térmico da região está aumentando nos últimos 15 anos;
b) As florestas estão ficando com mais estresse hídrico e perdendo biomassa;
c) Os eventos extremos estão aumentando em frequência e severidade;
d) Os impactos destes eventos estão afetando o desenvolvimento da região.

As florestas da Califórnia estão sofrendo uma das piores secas na história do estado, mas também um ataque de besouros que aumentou a mortalidade das árvores. O fogo tem acompanhado esta seca prolongada. CalFire, uma agência estadual da Califórnia, organizou uma visita para conhecermos o impacto do ‘Valley Fire’ que aconteceu no dia 12 de setembro de 2015 perto da cidade de Middletown. Em 12 horas o fogo andou 20 km, destruindo 1200 casas e afetando as florestas.

Na floresta estadual demonstrativa de Boggs Mountain, a mortalidade das árvores foi de quase cem por cento, como se pode ver na foto. Andamos na floresta, passando centenas de árvores em pé com copas que atingiam vinte metros ou mais – todas mortas e sem canto de pássaro para quebrar o silêncio.  Andamos num cemitério de árvores, pensando em como algo equivalente poderia acontecer no Acre.

Na verdade estamos acumulando condições que podem propiciar um evento deste.  Primeiro, as florestas do Acre tem muita biomassa, ou seja, lenha para queimar. O que impede o fogo de alastrar na floresta é a umidade da liteira no chão e na madeira. Mas como observamos em 2005 e 2010, uma seca prolongada pode reduzir a umidade suficiente para fogo andar no chão. Com um aumento de temperatura, o processo de secagem, chamada evapotranspiração, acelera.    Os dados do Dr. Saatchi e outros indicam que o potencial de secagem está acelerando, algo que alguns amigos seringueiros tem observado nas florestas do Acre nos últimos anos.

Naturalmente, como em 1925-26, 1997-98 e outros anos de El Niño ou de anomalias de temperatura do Oceano Atlântico (2005 e 2010), as temperaturas na região podem se elevarem e secas se prolongarem.   A situação atual do El Niño de 2015-16 acoplado com as experiências de 2005 e 2010 leva a preocupação que possamos entrar num período propício para incêndios, seja de pastagens, áreas agrícolas e sistemas agroflorestais, seja de florestas primárias.

Nesta situação, seria prudente analisar o que podemos fazer agora e agir consequentemente nos próximos meses para reduzir os impactos de uma seca intensificada por altas temperaturas. Este ano não podemos controlar o clima, mas podemos pensar em como reduzir as chances da seca levando a incêndios como os que aconteceram em 2005 e 2010.

Ninguém tem bola de cristal para saber com certeza o que será o futuro.   Mas isto não impede de buscarmos meios para reduzir o risco de desastres.

(*) Artigo originalmente publicado no jornal A Gazeta em 12/01/2016.
(**) Foster Brown, pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente do Curso de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MEMRN) da Universidade Federal do Acre (UFAC). Cientista do Programa de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA), do INCT SERVAMB e do Grupo de Gestão de Riscos de Desastres do Parque Zoobotânico (PZ) da UFAC. Membro do Consórcio Madre de Dios e da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais do Acre (CEGdRA).


(***) George Luiz Pereira Santos, Coronel do Corpo de Bombeiros do Acre, Coordenador Municipal de Defesa Civil de Rio Branco, especialista em Defesa Civil.

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segunda-feira, dezembro 05, 2016

POR QUE A PREOCUPAÇÃO SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS? (*)

5. A atividade humana é pequena ou não?

Foster Brown (**)

A discussão sobre mudanças climáticas oferece uma oportunidade para entender melhor como o nosso planeta funciona.  Um dos argumentos usados para refutar que atividade humana está afetando o clima é que mesmo com 7 bilhões de indivíduos, a humanidade é muito pequena em relação aos processos que atuam no planeta.

Para responder a esta afirmação, precisamos entrar no mundo dos números e usar a língua mais universal do mundo: a matemática.   Por exemplo, se cada pessoa ocupa 1 metro quadrado, os 7 bilhões de pessoas ocupariam 7 bilhões de metros quadrados. Dado que um quilômetro quadrado tem um milhão de metros quadrados, a população humana inteira ocuparia somente 7.000 quilômetros quadrados, ou seja, uma área de 70 km por 100 km. Pode aparecer grande, mas em comparação com a área de terra firme da Terra sem gelo, 130 milhões de quilômetros quadrados, a humanidade como indivíduos ocupa somente 0,005% dela, quase nada.

Mas nós somos mais do que a área individual. A área urbana é cerca de meio milhão de quilômetros quadrados para cidades maiores do que 500.000 habitantes, totalizando mais de 2 bilhões da população mundial. Esta área é 0,3% da área de terra firme, ainda pequena.

A situação, porém, começa a ser diferente quando falamos de agricultura, pecuária, extração de madeira, estradas, etc. Pesquisadores em instituições americanas e espanholas estimaram que mais de 50 % da área terrestre sem gelo já foi modificado por seres humanos até 2007. As modificações principais incluem áreas cultivadas (13%) e pastos (26%).   Como indivíduos ocupamos quase nada da Terra, mas com as nossas ações afetamos uma área significativa. Existem estimativas de que apropriamos cerca de um quarto da produção primária (produção de plantas) da superfície terrestre.  Além de afetar a superfície terrestre, estamos afetando os oceanos, desde a pesca até a acidificação das águas superficiais.

Agora vamos voltar a mudanças climáticas para ver se a atividade humana é significativa. Um argumento usado é que os fluxos naturais de carbono são tão grandes e os da atividade humana são tão pequenos e considerados insignificantes.  O, porém reside na natureza dos fluxos.   Os grandes fluxos naturais somam cerca de 200 bilhões de toneladas de carbono (CBTC) por ano, mas são cíclicos, se não, o estoque de gás carbônico na atmosfera em poucas décadas dobraria ou sumiria.  A contribuição de atividades humanas, na ordem de 10 CBTC por ano, porém, é cumulativa e acelerando.

Desde a década de 1950 temos bons registros da concentração de gás carbônico na atmosfera que subiu de 315 partes por milhão (ppm) em 1959 a 392 rpm em 2011.  Este aumento de 77 ppm pode ser usado para calcular quanto carbono acumulou na atmosfera em termos de bilhões de toneladas de carbono.  O fator de conversão, 2,13 BTC por ppm de gás carbônico, significa que cerca de 164 BTC acumulou na atmosfera durante esses 52 anos.

Dados independentes da produção de petróleo, gás natural e carvão indicam que cerca de 295 BTC foram emitidos durante este período, ou seja, atividade humana de queima de combustíveis fósseis emitiu 80% mais do que acumulou na atmosfera, o resto indo para os oceanos, acidificando as águas superficiais, e no crescimento de florestas e outra vegetação. Atualmente temos 400 ppm de gás carbônico na atmosfera e a concentração continua a subir.

De um lado, somos insignificantes em termos da área que ocupamos como indivíduos no planeta, mas tanto no efeito da cobertura da vegetação, na produção primária e na composição da atmosfera, viramos uma força planetária. Esta força pode ser usada inteligentemente, como Jonathan Foley e outros colegas escreveram na revista Nature em 2011 num artigo intitulado “Soluções para um Planeta Cultivado”.

Eles notaram que precisamos dobrar a nossa produtividade de comida nas próximas décadas e ao mesmo tempo reduzir o nosso impacto no meio ambiente. Todavia abordagens revolucionárias são essenciais para superar os desafios que a pobreza e aumento de demanda num mundo de mudanças criam. Temos a capacidade, no entanto precisamos desenvolver a vontade no tamanho desses desafios.

(*) Artigo originalmente publicado no jornal A Gazeta em 22/12/2015.
(**) Foster Brown, pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente do Curso de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MEMRN) da Universidade Federal do Acre (UFAC). Cientista do Programa de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA), do INCT SERVAMB e do Grupo de Gestão de Riscos de Desastres do Parque Zoobotânico (PZ) da UFAC. Membro do Consórcio Madre de Dios e da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais do Acre (CEGdRA).


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domingo, dezembro 04, 2016

POR QUE A PREOCUPAÇÃO SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS? (*)

4. QUEM DISSE QUE É UM PROBLEMA?

Foster Brown (**), Miguel Xavier (***) e Antônio Willian Flores de Melo (****)

A confiabilidade da mensagem que o homem está influenciando o clima depende em parte do mensageiro. Afinal, quem está afirmando ou refutando esta mensagem? Os autores, por exemplo, não são especialistas em meteorologia, mas trabalham com componentes críticos da influência humana sobre as mudanças climáticas, como incêndios florestais e biomassa de florestas.  Na atualidade é possível encontrar aqueles que concordam que o homem está sim influenciando o clima com suas atividades e aqueles que discordam e atribuem as alterações climáticas a processos naturais, ignorando o incrível aumento das emissões de gases de efeito estufa desde a revolução industrial nos últimos 50 anos.

Em nível individual, é possível buscar qualquer resposta que se queira. Inclusive, podemos ver sítios na Internet que propõem seriamente que a Terra é plana (ver figura) e que há um complô para esconder essa realidade das pessoas (1). Um indicador de confiabilidade e consistência científica maior do que um sítio da Internet seriam as declarações realizadas por organizações diversas de cientistas que estão afirmando a influência antrópica nas mudanças climáticas, colocando em risco desta forma suas reputações no caso de estarem errados.   

Em vários países, a academia nacional de ciências reúne seus melhores cientistas e só se manifestam sobre determinados assuntos quando há o apoio da grande maioria de seus membros. Em 2009, a Academia Brasileira de Ciências assinou conjuntamente com as academias de ciências da China, Índia, México, África do Sul, Rússia, Canadá, Itália, Estados Unidos, Reino Unido, França e Japão (2) uma declaração sobre a importância de reduzir rapidamente as emissões de gás carbônico oriundas de atividades humanas para limitar os impactos no clima.  Os países destas academias representam numericamente mais da metade da população mundial.

Além dessas 13 academias nacionais, a Organização Mundial de Meteorologia da ONU declarou em 2014 que as evidências para afirmar que o aquecimento global é induzido pela atividade humana são cada vez mais robustas (3). 

Nos Estados Unidos a situação é curiosa, apresentando uma dicotomia imensa entre as afirmações de cientistas e de políticos.  A Sociedade Americana de Meteorologia, com 13.000 membros em 100 países (4), declarou em 2012: “Há provas consistentes de que a atmosfera, os oceanos, e a superfície terrestre estão aquecendo; o nível do mar está subindo; e a cobertura de neve, geleiras e o gelo do mar Ártico estão diminuindo. A causa dominante do aquecimento desde a década de 1950 são as atividades humanas. Esta descoberta científica é baseada em um número grande e convincente de trabalhos científicos. O aquecimento observado na atualidade é irreversível para uma quantidade significativa de anos no futuro, e maiores aumentos da temperatura poderão ocorrer se a quantidade de gases de efeito estufa continuar a aumentar e acumular na atmosfera” (5).

Complementando os meteorologistas, a União Geofísica Americana, com 35.000 membros em 139 países, concluiu em 2013 que “a humanidade é a maior responsável pelas mudanças climáticas globais observadas nos últimos 50 anos. Respostas sociais rápidas podem diminuir significativamente os efeitos negativos” (6).    

Além destas declarações, estudos publicados por Oerskes (7) em 2004 e Cook et al. em 2013 (8), entre outros, mostraram que entre artigos publicados em revistas científicas, menos que 3% (três porcento) discordam que as atividades humanas estão afetando o clima.  Em outras palavras, a grande maioria dos cientistas que publicam sobre o clima, as academias de ciências e organizações de dezenas de milhares de cientistas, meteorologistas e geofísicos do mundo estão convencidos que temos um problema sério com a influência humana no clima.  

No âmbito político, o exemplo estadunidense pode ser considerado notável, mas por outro lado é estranho a ponto de misturar ciência, política e publicidade. Os candidatos do partido republicano para presidência dos Estados Unidos apresentam extrema dificuldade em concordar com a influência humana no clima, dizendo frases como “o clima está sempre mudando”, “tenho dúvidas”, “pseudociência”, “uma fraude”, etc. (9). Entretanto, até 2008 alguns destes republicanos acreditavam na influência humana nas mudanças climáticas, porém desde então, fortes campanhas publicitárias associaram a influência humana no clima como justificativa para a expansão do governo federal e controle da iniciativa privada.

Esta associação, como é de se esperar, criou um certo tipo de reação alérgica em conservadores que fazem a base do partido republicano.  Suas campanhas políticas tiveram apoio financeiro de vários bilionários e companhias de petróleo.  A documentação deste processo de minipulação da opinião pública pode ser visto no livro e documentário “Merchants of Doubt” (Mercadores de Dúvidas) (10).

Este paradoxo cresce nos Estados Unidos, onde há evidências cada vez maiores da influência humana no clima, porém os políticos conservadores, que controlam a Câmera de Deputados e o Senado, procuram cada vez mais evitar soluções para mitigar e se adaptar às mudanças climáticas.  Apesar da resistência politica, a ciência vem se fortalecendo, como por exemplo, a Sociedade Americana de Meteorologia que publicou recentemente uma edição especial sobre os eventos extremos que ocorreram em 2014 (11).  Os autores dos 32 artigos mostraram que uma influência humana foi detectada em cerca de metade dos eventos extremos estudados no mundo inteiro no ano de 2014.
É claro que a influência humana no clima é tema para muitas outras discussões profícuas. Usamos alguns sítios (12) da internet para buscar opiniões diversas sobre o tema para que pudéssemos chegar as nossas próprias conclusões. Recomendamos que os leitores façam as suas próprias buscas de informação sobre as mudanças climáticas com intuito de poder agir baseado em conhecimentos sólidos. 

Caso a grande maioria dos cientistas esteja certa em relação a essa questão climática, todas e quaisquer soluções precisarão estar à altura do problema, sendo necessárias informações consistentes e amplamente discutidas (como é o propósito deste artigo) para compartilhar com a sociedade civil o que sabemos e o que não sabemos sobre os riscos e vulnerabilidades às quais estamos sujeitos. Afinal as soluções, como o Papa Francisco mencionou em sua Carta Encíclica Laudato Si (13), deverão sair de um diálogo em que todos deverão estar envolvidos enquanto humanidade.  

Links para as referências citadas:
(1) www.youtube.com/watch?v=oc0trwHSRIA;  
(1) www.youtube.com/watch?v=U55UDzNCSAE http://ifers.boards.net/;
(1) www.youtube.com/watch?v=nNCKZxiGi54; 
(1) www.youtube.com/watch?v=h5i_iDyUTCg
(1) www.abc.org.br/IMG/pdf/doc-33.pdf;
(2) www.abc.org.br/article.php3?id_article=279&var_recherche=declara%E7 % E3o+clima
(3) www.wmo.int/media/sites/default/files/1152_en.pdf, p.3
(4) www2.ametsoc.org/ams/index.cfm/membership/
(5) www2.ametsoc.org/ams/index.cfm/about-ams/ams-statements/statements-of-the-ams-in-force/climate-change/
(6) www.sciencepolicy.agu.org/files/2013/07/AGU-Climate-Change-Position-Statement_August-2013.pdf;
(6) www.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/2013EO34/epdf
(7) Oreskes, Naomi. “The Scientific Consensus on Climate Change.” Science 306, no. 5702 (December 3, 2004): 1686–1686. doi:10.1126/science.1103618.
(8) John Cook, Dana Nuccitelli, Sarah A Green, Mark Richardson, Bärbel Winkler, Rob Painting,  Robert Way, Peter Jacobs and Andrew Skuce. “Quantifying the Consensus on Anthropogenic Global Warming in the Scientific Literature.” Environmental Research Letters 8, no. 2 (2013): 024024.
(9) http://thinkprogress.org/climate/2015/07/26/3683808/gop-field-climate-energy-ranked/
(10) https://www.youtube.com/watch?v=7YmRovaSYkE
(11) Herring, S. C., M. P. Hoerling, J. P. Kossin, T. C. Peterson, and P. A. Stott, Eds., 2015: Explaining Extreme Events of 2014 from a Climate Perspective. Bull. Amer. Meteor. Soc., 96 (12), S1–S172.
(11) www2.ametsoc.org/ams/index.cfm/publications/bulletin-of-the-american-meteorological-society-bams/explaining-extreme-events-from-a-climate-perspective/
(12) wattsupwiththat.com; https://medium.com/@pullnews/what-i-learned-about-climate-change-the-science-is-not-settled-1e3ae4712ace; http://www.populartechnology.net/2009/10/peer-reviewed-papers-supporting.html
(13)w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

* Artigo originalmente publicado no jornal A Gazeta, Rio Branco-AC, em 24/11/2015

** Foster Brown, Pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente do Curso de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MEMRN) da Universidade Federal do Acre (UFAC). Cientista do Programa de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA), do INCT SERVAMB e do Grupo de Gestão de Riscos de Desastres do Parque Zoobotânico (PZ) da UFAC. Membro do Consórcio Madre de Dios e da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais do Acre (CEGdRA).
*** Miguel Xavier, Professor do Curso de Licenciatura em Química do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza (CCBN); pesquisador dos grupos de pesquisa de Gestão de Riscos de Desastres do Parque Zoobotânico (PZ) e de Nanociência, Nanotecnologia e Nanobiotecnologia (NNN) da UFAC.
**** Antônio Willian Flores de Melo, Professor dos Cursos de Engenharia Agronômica e Engenharia Florestal do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza (CCBN); pesquisador do grupo de pesquisa de Gestão de Riscos de Desastres do Parque Zoobotânico (PZ) da Universidade Federal do Acre.

Fonte da figura: A Terra Plana.

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